Arquivo

Archive for fevereiro \26\UTC 2012

UM NOVO JOHN FORD SILENCIOSO

Earle Fox em 'Upstream' (1927), de John Ford.

Em 2010 foi encontrada, na Nova Zelândia, uma coleção de 75 filmes americanos produzidos entre 1910 e 1920, estrelados por atrizes como Clara Bow, Mabel Norman e Mary Fuller. Diversos deles eram considerados perdidos para sempre. A coleção estava no New Zealand Film Archive, mas seu significado não fora reconhecido até ser avaliada por um preservacionista de Los Angeles. Graças a um acordo com o National Film Preservation Foundation, de San Francisco, as películas retornaram aos EUA.

Somente um quinto da produção cinematográfica americana entre 1900 e 1940 sobreviveu. O resto desapareceu por acidente ou negligência. Nos anos de 1910, o cinema americano já dominava o mercado global: a cada dez filmes exibidos no mundo, nove eram produzidos nos EUA. Para Annette Melville, diretora do NFPF, uns 70% dos filmes encontrados estão completos e muitos deles com a tintagem colorida original, o que é extraordinário.

A joia da coroa é Upstream (1927), de John Ford. O cineasta rodou mais de 60 filmes mudos entre 1917 e 1928, mas apenas dez deles chegaram até nós de forma completa. A cópia em nitrato de Upstream apresenta danos no começo, obscurecendo os créditos, o que pode explicar porque não se percebeu antes sua importância. A coleção inclui um trailer de outro filme desaparecido de Ford, Strong Boy. Uma curiosidade da coleção é The Sergeant (1910), rodado em locações em Yosemite antes de se tornar Parque Nacional, na Califórnia, com a cavalaria do exército a patrulhar o local selvagem.

São frequentes as descobertas de películas mudas desaparecidas na Nova Zelândia. Isso se deve ao sistema de distribuição dos filmes à época. As cópias rodavam toda a América e voltavam aos distribuidores ou eram destruídas. Como a Nova Zelândia era distante demais, os distribuidores preferiam manter as cópias ali, em depósitos, pois os custos da remessa de volta não compensavam. Desses depósitos, as películas acabaram seguindo para a cinemateca do país.

Fonte: http://www.guardian.co.uk/film/2010/jun/07/john-ford-movie-new-zealand.

Anúncios
Categorias:Nota

RESTAURAÇÃO HOJE

House (1977), de Nobuhiko Obayashi.

Entrevistados por Jerome Henry Rudes, alguns especialistas envolvidos na restauração de filmes clássicos e em seus lançamentos em DVD e salas de cinema de arte nos EUA, observaram que, no curso de uma restauração, o restaurador vê o filme entre 50 e 150 vezes. É preciso estar apaixonado pelo filme. Nos EUA, a Film Foundation e a Academy Film Archive são algumas das instituições mais competentes em restauração. Parece que os riscos verticais são os mais difíceis de serem completamente removidos.

Para as empresas que lançam os filmes restaurados em DVD, os direitos autorais constituem o problema mais difícil de ser resolvido: pode levar até quinze anos para se  encontrar os detentores dos direitos, como foi o caso de People of the Wind (1976), de Anthony Howarth, lançado pela Milestone Film & Video. Às vezes, é preciso desistir de um “filme de sonho” por ser impossível encontrar os detentores dos direitos, ou por ser sua aquisição demasiado cara.

A exibição não é um problema: toda cidade grande nos EUA tem pelo menos uma cinemateca ou uma boa sala de cinema de arte. Muitas têm mais que uma. Assim, os clássicos, especialmente quando ganham novas restaurações, são exibidos nessas salas. A divulgação é mais complicada, porque os jornais não dão a devida cobertura a esses eventos: são os blogs, sites e redes sociais como o Facebook e o Twitter que acabam cumprindo a função, consolidando a audiência para as sessões de revivals nas salas de cinema.

Um dos principais lançamentos da Milestone foi Soy Cuba (Sou Cuba, 1964), de Mikhail Kalatozov, que ganhou maravilhosa edição em três discos, incluindo o documentário brasileiro Soy Cuba, o mamute siberiano (2005), de Vicente Ferraz, dentro de uma caixa de charutos cubanos. Dennis Doros, fundador da empresa e um dos diretores da Association of Moving Image Archivists, não tinha ideia como as pessoas reagiriam politicamente ao lançamento, no qual arriscara todo seu dinheiro, porque em 1995 as relações EUA-Rússia ainda estavam tensas. Ele tremeu ao comprar o Times, ansioso para ler as resenhas. Mas o Times deu-lhe a página principal da seção de  Artes, com enorme fotografia do filme ilustrando a exaltante crítica de Janet Maslin. Ele ficou em estado de choque, delirando de felicidade. Desde então, a Milestone prepara cada lançamento de um filme restaurado como se fosse o último, investindo o máximo em cada produção. Para o apaixonado Doros, filmes podem mudar vidas.

Quando Dan Berger, dos Oscilloscope Laboratories, preparava o lançamento de La loi (A lei, 1959), de Jules Dassin, a partir das latas pertencentes à Cinemateca Francesa, enviadas aos EUA, encontrou uma lata extra, contendo um final alternativo para o filme. A cena fora cortada pelos editores, que tiveram razão nisso, já que nada acrescentava à trama. Mas ele decidiu incluir a cena como um bônus do DVD, como um interessante insight sobre a edição do filme. A nova cópia foi exibida na sala da Brooklyn Academy of Music.

Richard Peña, diretor de programação da The Film Society of Lincoln Center, recordou outro exemplo de edição em cinema, quando, apresentando uma retrospectiva de Ang Lee, o cineasta, que havia oferecido para uma première o director’s cut de Ride With The Devil (Cavalgada com o diabo, 1999), incluindo cenas nunca vistas antes e outras mais extensas, veio ter com ele, assim que o filme terminou, comentando: “O filme agora está longo demais, não acha?”.

Sarah Finklea, da Criterion Collection / Janus Films, lembrou que, após lançar La Règle du Jeu (A regra do jogo, 1939), de Jean  Renoir, em cópia restaurada, um crítico telefonou-lhe para dizer que já vira o filme diversas vezes, mas só agora, assistindo à cópia restaurada no cinema, ele percebeu uma rã sentada ao pé de uma estátua numa cena-chave. Ele nunca tinha percebido aquela rã, que sempre estivera ali todas as vezes que vira o filme. Contudo, as maiores alegrias para Finklea foram a exibição da cópia restaurada de Rashomon (1950), de Akira Kurosawa; a retrospectiva Charles Chaplin em cópias novas; e, sobretudo, a descoberta de House (1977), de Nobuhiko Obayashi, um alucinante filme japonês de horror surrealista, relativamente desconhecido, que pode, graças à Criterium, encontrar uma nova audiência.

Categorias:Nota