DIÁRIO CINEMATOGRÁFICO

Este ensaio foi elaborado a partir da minha comunicação “Filmoteca Mineira” na Mesa: Projetos de digitalização e preservação digital, dentro doII Seminário Internacional do Arquivo Público Mineiro – Documentos Eletrônicos: Gestão e Preservação, promovido pela Associação Cultural do Arquivo Público Mineiro (ACAPM); Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais (SEC/MG); Arquivo Público Mineiro (APM); Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), organizado por Renato Pinto Venâncio/APM; Luiz Souza/UFMG; Andréa de Magalhães Matos/Via Social Projetos Culturais e Sociais, entre 5 e 8 de novembro de 2007, no dia 8 de novembro de 2007, no Auditório da Escola de Direito da UFMG. Escrito a pedido dos organizadores, o ensaio foi, contudo, excluído dos anais do evento, encontrando-se aqui revisto e atualizado.

A idéia da preservação dos filmes como patrimônio cultural nasceu três anos após a primeira exibição pública do cinematógrafo dos Irmãos Lumière: em 25 de março de 1898, o…

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DIÁRIO CINEMATOGRÁFICO

LUIZ NAZARIO responde a Leonardo Oliveira e Rodrigues. Partes da entrevista foram publicadas em: Preservação da memória audiovisual mineira,Jornal FUNDEP, 2008, URL: www.fundep.ufmg.br. Revisão: 27/06/2010.

Como surgiu a idéia e quando teve início a digitalização do acervo da Escola de Belas Artes?

A idéia da digitalização do acervo de vídeos da Escola de Belas Artes surgiu logo após a conclusão do Projeto Filmoteca Mineira (2003), que incluiu a digitalização de importantes títulos dos acervos de películas do FTC e do CRAV. Catalogamos então todo o acervo da Filmoteca da EBA e produzimos a Coleção Filmoteca Mineira, uma caixa com 10 DVDs contendo 50 títulos essenciais de nosso acervo, que hoje podem ser vistos pelo público na Biblioteca da EBA. Já se podem fazer pesquisas com mais facilidade sobre estes filmes, que antes tinham um acesso muito restrito. Faltava, porém, catalogar o acervo de vídeo da…

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A RESTAURAÇÃO DE ‘EM BUSCA DO OURO’

O espetacular trabalho de restauração de The Gold Rush (Em busca do ouro, 1925), de Charles Chaplin, pela Criterium, é aqui demonstrado, com exemplos de cenas do filme antes e depois da limpeza da película e da reconstrução de uma versão mais completa, com cenas retiradas da versão sonora que Chaplin lançou em 1942, narrando a história. A imagem ganha aqui uma nitidez cristalina, como se o filme realizado há 87 anos tivesse acabado de ser rodado, saindo pela primeira vez do laboratório para exibição nos cinemas. Infelizmente hoje a história da sétima arte só ganha realidade no Primeiro Mundo, onde algumas poucas salas ainda exibem os clássicos da época de ouro do silencioso e dos grandes estúdios.

Em toda parte, os palácios do cinema foram demolidos para dar lugar a templos religiosos e estacionamenros de automóveis. Até os anos de 1980, algumas salas comerciais de São Paulo ainda exibiam, em ocasiões especiais, comemorativas, reprises dessas maravilhas: vi retrospectivas completas  de Chaplin e de Buster Keaton, mostras de Rodolfo Valentino, de Greta Garbo, de Mae West, de W. C. Fields, de Harold Lloyd, dos Irmãos Marx, de Humphrey Bogart, de Bette Davis, de Marilyn Monroe… Hoje, nem mesmo na TV (outrora tão pródiga em reprisar clássicos de todos os gêneros) podemos ver as obras que construíram a linguagem cinematográfica. Os brasileiros foram privados do prazer estético de ver os grandes filmes, seja na telinha, de forma vicária, válida apenas para fins de informação, seja onde eles são realmente grandes: na telona do cinema.

SINHÁ OLYMPIA

Olympia Cotta.

Neta do Marquês do Paraná, Olympia Angélica de Almeida Cotta, a Sinhá Olympia, nasceu em 1888 na Fazenda Catapreta, em Santa Rita Durão. Moça de boa família, sua casa pertencera ao poeta Frei José de Santa Rita Durão, autor de Caramuru. Gostava de ler, escrevia poesias, tocava piano, falava latim, tinha uma bela voz. Chegou a ser professora. Linda quando jovem, ela era cortejada pelos rapazes da região: “Todos queriam dançar comigo. Sabe o que aconteceu? A escolha era tão difícil, os rapazes eram tão bonitos, que eu acabei não casando com nenhum.”

Olympia era lésbica, provavelmente, numa época em que isso era impossível no Brasil, em Minas Gerais, em Santa Rita Durão. Ela criou então para si uma lenda romântica. Nobre apaixonada pelo farmacêutico pobre da cidade, Olympia teria sucumbido à tirania do pai, Coronel Gomes de Almeida Cotta. Ele a proibira de casar-se com o republicano, pois a irmã mais velha (na família de dezesseis filhos) tinha sofrido demais nas mãos do marido. Depois da morte do pai, Olympia encontrou um baú cheio de cartas que o amado lhe havia escrito. Seu pai as escondera para fazê-la acreditar que o rapaz não a amava. O jovem morreu logo depois de tristeza. A mãe dele vingou-se enviando a Olympia um abacate envenenado.

Em outra versão, narrada por Olympia, foi o farmacêutico que, frustrado em seu desejo, vingou-se dela presenteando-a com o tal abacate: “Era um pretendente por demais belo. Me deu um abacate, um dia. Não poderia me ter e me deu um abacate. Um abacate amargo. Ó, ainda sinto seu fel na boca até hoje.”  Foi por volta de 1918. Depois de comer o abacate envenenado, entrou em depressão e caiu numa letargia silenciosa. Ficava à janela a chorar. Ou falava sozinha, murmurando histórias sem sentido. Em 1929, mudou-se para Ouro Preto com a família. Passava o tempo visitando parentes, mas estes, cansados das visitas, começaram a evitá-la. Olympia pôs-se a perambular.

Passava dos cinquenta anos quando se tornou mendiga andarilha. Sinhá Olympia era agora uma força da Natureza. Os parentes ficavam escandalizados. Empobrecida, a família esforçava-se por manter as aparências de um passado glorioso. Excluída da sociedade, Olympia foi discriminada, mas tornou-se querida dos estudantes e dos turistas que visitavam Ouro Preto. Todos os dias, ela caminhava até a Praça Tiradentes para pedir ajuda aos visitantes. Vivia da caridade alheia. As esmolas que lhe sobravam, ela as repassava aos mais pobres.

Se alguém não tivesse dinheiro ou comida para dar, Olympia pedia um chapéu e um gole de pinga (em sua casa hoje funciona a Cachaçaria Milagre de Minas). Ela acumulou, assim, uma enorme coleção de chapéus de todo o mundo, que usava em combinações exóticas e coloridas, num magnífico amontoado barroco de roupas e acessórios: além dos chapéus malucos, uma cesta de trapos e tiras coloridas, roupas do século XVIII, saias por cima de saias, maquiagem carregada, unhas vermelhas, xales de tricô, cigarro na boca, cabo de vassoura que virou bambu e, por fim, cajados bonitos, torneados, decorados com flores, penas, papel de bala, papel crepom, santinhos, pacotes vazios de cigarro, fotografias, broches.

Lançava frases irônicas aos que a encaravam. Vivia em outros séculos. Sim, conhecera Tiradentes. Era parente de Dom Pedro I, de D. Pedro II, do Marquês do Paraná. Fora amiga da Princesa Isabel, do alferes Joaquim José. Inspirara um amor infeliz no poeta revolucionário Cláudio Manoel da Costa. Continuava a cruzar, nas ruas de Ouro Preto, com os fantasmas dos Inconfidentes. Fora mesmo uma princesa, até ser coroada imperatriz do Brasil, quando alforriou seus escravos e se tornou amante de Chico Rei. Reescrevia a História para inscrever-se como a figura central do enredo. Sinhá Olympia era uma força do passado.

Transportada para o século XX, Sinhá Olympia conheceu Vinícius de Morais, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, que ela considerou o último de seus amores: “Meu último homem foi Juscelino. Era meu noivo, mas nunca dei esperanças. Vinha aqui em casa me cortejar, mas amores e abacates nunca mais.” Não o chamava de Kubitschek, mas de Kabitschek, porque “ku” soava mal, o povo punha maldade, embora fosse “pescoço” em francês. Cartões e presentes do mundo inteiro chegavam a Sinhá Olympia pelos correios: chapéus do mercado das pulgas de Paris, medalhas de Londres, moedas de várias partes do mundo.

Ela era tão importante! Só não conseguia enganar as crianças. Crianças sabem de tudo, e costumam ser cruéis e medonhas. Especialmente os meninos. Eles zombavam de sua voz grossa, de suas feições masculinas e chamavam-na de “homem” (hoje, ainda mais medonhos e cruéis, a chamariam de “sapatão”). Enfurecida, ela revelava seu ódio em gestos indecentes, lançando palavrões terríveis. Por fim, para provar que não era “homem”, levantava a saia e mostrava a vagina, pois sob o amontoado de roupas ela não usava nada.

Sinhá Olympia chegou a participar do “Programa do Chacrinha”. Foi capa da revista Times. Posou em fotos com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, quando estes visitaram Ouro Preto em 1959 – essas e outras imagens incríveis dos filósofos franceses no Brasil integram o acervo da Casa Jorge Amado, em Salvador. A louca santa foi ainda cantada por Carlos Drummond de Andrade. Ganhou homenagens de Toninho Horta, Fernando Gabeira, Milton Nascimento. Rita Lee considerou-a “a primeira hippie do Brasil”.

Jean-Paul Sartre, Sinhá Olympia e Simone de Beauvoir.

Depois de 1970, cansada, deixou de subir as ladeiras de Ouro Preto até a Praça Tiradentes e ficava apenas sentada à porta de sua casa. Em 1971, Luiz Alberto Sartori Inchausti [1] registrou em filme [2] essa mendiga barroca que é a nossa Miss Havisham, a nossa Louca de Chaillot. No curta-metragem D. Olímpia de Ouro Preto, é ela mesma quem fala do “destino maldito” que a levou para Ouro Preto:

Ah meus meninos, vocês são novos e não sabem o sofrimento que passei. Fui obrigada a fazer promessa de pedir esmolas, sair mendigando para socorrer aos pobres e também valer a minha pessoa. Eu fiquei sem coisa alguma. Agora, imagina você meu filho, que martírio, sem o povo saber por que ando mendigando, porque que eu ando como uma mendiga, no meio da rua, pedindo… E ganho tudo, e protejo a quem não tem. Com a graça de Deus.

Uma cópia arruinada do filme foi postada no site da CLINICAPS; pode-se ouvir a trilha sonora, mas as imagens são meros borrões. A película está conservada no Acervo Arquivo Publico Mineiro, em cujo site se pode ver um trecho, replicado no YouTube. É uma relíquia que precisaria ser restaurada:

Na Igreja Nossa Senhora do Pilar, Sinhá Olympia acompanhava as missas e, às vezes, se punha a cantar muito alto ou fora de hora, recebendo, então, pitos do Padre Simões. Mas ela o respeitava. E ele esteve ao seu lado nos últimos dias de vida. Olympia morreu em 1976, aos 87 anos, de arteriosclerose. Foi sepultada no cemitério da Igreja de São José. Padre Simões encontrou depois, sob a cama de Olympia, notas e mais notas de dinheiro, dos mais diferentes países: “Ela não precisava disso, mas adorava pedir dinheiro aos turistas”.

Sinhá Olympia tornou-se um mito mineiro. Os defensores da Reforma Psiquiátrica encontram nela uma pioneira a sair do hospício para encontrar seu lugar na cidade, provando ser possível a circulação social do louco. Sua figura deu nome à Escola de Samba Sinhá Olympia de Saramenha e inspirou o samba-enredo da Mangueira, “E deu a louca no barroco” (1990):

Viveu

Em Vila Rica a Cinderela

Entre sonhos e quimeras

De raríssimo esplendor

Brilhou

Como o sol da primavera

E a beleza de uma flor

E assim | bis

Imperando nos salões

Em seu doce delírio

Conquistou corações

Acalentou o ideal da liberdade

E transformou toda mentira

Na mais fiel realidade

Vai…

Contar a história do infinito

Vai…

Não haverá amanhecer

Vai dizer que foi esculturada

Que sofreu por amor

E foi amada

Musa inspiradora

Luz de uma canção

Bailando na imensidão

Sinhá Olympia

Quem é você

Sou amor sou esperança

Sou Mangueira até morrer.

Mais recentemente, Valfredo Garcia encarnou-a em vídeos performáticos.  O artista plástico Zé Nelson fez seu retrato. O Grupo Teatro Andante contou sua vida na peça Olympia (2001) de Ângela Mourão, com direção de Marcelo Bones e texto da escritora Guiomar Grammont:

Chiquinho de Assis compôs uma bela sinfonia para essa Virgem Louca, gravada pela Orquestra Experimental da UFOP para o filme Brésil Baroque 2: Compositeurs d’hier et d’aujourd’hui (2005), do documentarista francês Luc Riolon:

E Edion Lima dedicou-lhe a canção “Olympia” (2010), gravada por Vicente Gomes, do Grupo Viola de Folia:

Diante da profusão de registros que se acumulam e que, com o tempo, só tendem a aumentar, numa replicação infinita de citações, homenagens, paródias e glosas, convém recordar a importância do cinema de arquivo: Dona Olímpia de Ouro Preto, de Sartori, permanece o único registro real de Sinhá Olympia. Mesmo com o nome da personagem errado no título, feito em condições precárias de filmagem, numa produção independente de baixíssimo orçamento, este filme é um documento histórico. Poderão ser produzidos muitos outros filmes a partir de fotografias e cenas desse filme, com boas verbas, reconstituições esmeradas, grandes atores vivendo a personagem, em imagens perfeitas, de colorido brilhante. Mas nenhum outro filme terá a Olympia real que apenas Sartori, e mais ninguém, registrou em película para a posteridade.

Fontes:

SINHÁ OLYMPIA: http://tccolympia.wordpress.com/

EM OURO PRETO: http://emouropreto.blogspot.com.br/2008/12/olmpia-cota.html


[1] Nascido em Ouro Preto em 1947, Luiz Alberto Sartori Inchausti graduou-se em Engenharia pela UFMG e fez pós-graduação em urbanismo pela mesma escola. Realizou os curtas-metragens: A festa (1967), Prêmio de Melhor Comunicação no III Festival de Cinema Amador JB-Mesbla 1967 e Prêmio de Melhor Fotografia no Festival Bandeirante de Cinema Experimental Latino-Americano 1968; Dona Olímpia de Ouro Preto (1971), Primeiro Prêmio no I Concurso Mineiro de Curta-Metragem, da CEC; Polícia, Crime dos Irmãos Piriás, Primeiro Prêmio no VII Concurso Mineiro de Curta-Metragem 1982 e Prêmio de Melhor Roteiro de curta-metragem no I Rio Cine Festival 1985; BH é a nossa cara (1988). Fonte: http://www.comartevirtual.com.br/lasartor.htm.

[2] D. Olímpia de Ouro Preto (Brasil, Belo Horizonte, 1971, 14’16’’, cor, doc, 35mm). Direção: Luiz Alberto Sartori Inchausti. Fotografia e câmera: Maurício Andrés, Ricardo Stein. Roteiro: Sartori, Geraldo Linares Filho. Música: Toninho Horta. Som: José Sette de Barros Filho, Ricardo Stein; Montagem: José Tavares Barros, Sartori. Produtor: Alfredo Antônio. Coprodutores: Maurício Andrés, Sartori. Equipe de produção: Flávio Ferreira, Antônio Maria de Oliveira, Jair Carvalho Junior.

‘THE SPANISH DANCER’ NO FESTIVAL DO FILME SILENCIOSO DE SAN FRANCISCO

THE SPANISH DANCER
Uma das estrelas do XVII Festival do Filme Silencioso de San Francisco 2012 será a apresentação do filme restaurado The Spanish Dance (1923), de Herbert Brenon, com Pola Negri. O filme foi o primeiro trabalho de destaque da atriz polonesa na América. Conta a história de uma dançarina cigana e seu caso de amor com um nobre empobrecido. Ao longo dos anos, o filme foi reeditado, mutilado, encurtado, em versões que o desfiguraram completamente. Os restauradores enfrentaram sérios problemas com frames ausentes, danos e deterioração dos materiais, além de falta de referências sobre como reconstruir o filme. O problema foi resolvido quando uma edição com corte original foi encontrada na Biblioteca Margaret Herrick na Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A cópia forneceu um guia de trabalho e fotogramas ausentes nas outras versões, provenientes de quatro fontes: um nitrato em 35mm do EYE Film Institute (Holanda), um nitrato 35mm do Belgian Film Archiv (Bruxelas), uma cópia 16mm  do Lobster Films (Paris) e uma cópia 16mm da Photoplay Productions. Todo o material foi escaneado com resolução 2K para ser trabalhado como intermediário digital (ID). O softer  DIAMANT foi usado para reparar os elementos deteriorados da película. Os técnicos do Laboratório Haghefilm transferiram os arquivos digitais para película e a tintaram de acordo com as cores originais. Através do processo Desmet Prints, um negativo preto e branco mais resistente que o colorido foi criado para propósitos de preservação. Para o relançamento de The Spanish Dancer a 24 de julho de 2012, no San Francisco Silent Festival, Rob Byrne, seu presidente, e um dos arquivistas que trabalharam no projeto, prometeu oferecer ao público um exemplo de como era uma sessão de cinema silencioso em 1923. Fonte: San Francisco Silent Film Festival.

RESTAURADO O PRIMEIRO FILME DE HITCHCOCK

The Pleasure Garden (1926).

The Pleasure Garden (1926).

O primeiro filme de Alfred Hitchcock, The Pleasure Garden (1926), foi restaurado pelo British Film Institute (BFI) a partir das diversas cópias existentes, ganhando vinte minutos a mais que na mais longa das versões conhecidas. A nova edição recuperou o sentido original de algumas sequências tornadas incompreensíveis nas cópias, assim como as piadas visuais que marcarão toda a obra de Hitchcock, como a cena das pernas das coristas, desfocadas à primeira vista, entrando em foco quando um velho espectador as aprecia com seus binóculos; ou a do janota que fuma um charuto, com ar cafajeste, ao lado da placa: “Proibido Fumar” na coxia do teatro. Realizado em 1925, lançado em 1926, o melodrama também possui alguns elementos de suspense criminal.

Na trama, Patsy Brand, corista no The Pleasure Garden”, casa-se com o soldado Levett, que está de partida para os Trópicos. Antes da lua-de-mel, Patsy conhece Jill Cheyne, namorada de Hugh Fielding, amigo do marido. Percebendo que Jill passa por dificuldades, Patsy arruma-lhe um emprego de dançarina naquele music-hall. Quando Hugh e Levett partem para as colônias, Patsy e Jill divertem-se nas noites alegres de Londres. Jill se esquece do namorado e cai na orgia. Mas Patsy, ao saber que Levett adoeceu, corre ao seu encontro. Descobre que o marido entregou-se à bebida e vive com uma nativa. Enfurecida, Patsy o abandona. Quando a nativa morre, Levett enlouquece e vai atrás da esposa, com a intenção de matá-la.

A restauração de The Pleasure Garden

Entre junho  e outubro de 2012, o BFI apresentará  a espetacular mostra The Genius of Hitchcock, projetando na  grande tela todos os filmes de Hitchcock, na mais completa retrospectiva desse gênio do cinema, incluindo os raramente vistos filmes mudos da sua fase inglesa, que deverão ser exibidos com música ao vivo, executada por  orquestra. Uma celebração imperdível para os happy few que habitam o “Pleasure Garden” de Londres.

UM NOVO JOHN FORD SILENCIOSO

Earle Fox em 'Upstream' (1927), de John Ford.

Em 2010 foi encontrada, na Nova Zelândia, uma coleção de 75 filmes americanos produzidos entre 1910 e 1920, estrelados por atrizes como Clara Bow, Mabel Norman e Mary Fuller. Diversos deles eram considerados perdidos para sempre. A coleção estava no New Zealand Film Archive, mas seu significado não fora reconhecido até ser avaliada por um preservacionista de Los Angeles. Graças a um acordo com o National Film Preservation Foundation, de San Francisco, as películas retornaram aos EUA.

Somente um quinto da produção cinematográfica americana entre 1900 e 1940 sobreviveu. O resto desapareceu por acidente ou negligência. Nos anos de 1910, o cinema americano já dominava o mercado global: a cada dez filmes exibidos no mundo, nove eram produzidos nos EUA. Para Annette Melville, diretora do NFPF, uns 70% dos filmes encontrados estão completos e muitos deles com a tintagem colorida original, o que é extraordinário.

A joia da coroa é Upstream (1927), de John Ford. O cineasta rodou mais de 60 filmes mudos entre 1917 e 1928, mas apenas dez deles chegaram até nós de forma completa. A cópia em nitrato de Upstream apresenta danos no começo, obscurecendo os créditos, o que pode explicar porque não se percebeu antes sua importância. A coleção inclui um trailer de outro filme desaparecido de Ford, Strong Boy. Uma curiosidade da coleção é The Sergeant (1910), rodado em locações em Yosemite antes de se tornar Parque Nacional, na Califórnia, com a cavalaria do exército a patrulhar o local selvagem.

São frequentes as descobertas de películas mudas desaparecidas na Nova Zelândia. Isso se deve ao sistema de distribuição dos filmes à época. As cópias rodavam toda a América e voltavam aos distribuidores ou eram destruídas. Como a Nova Zelândia era distante demais, os distribuidores preferiam manter as cópias ali, em depósitos, pois os custos da remessa de volta não compensavam. Desses depósitos, as películas acabaram seguindo para a cinemateca do país.

Fonte: http://www.guardian.co.uk/film/2010/jun/07/john-ford-movie-new-zealand.

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